Ótimos resultados vs quebradeira no Ironman Fortaleza: como explicar?

Fonte:www.papodeesteira.com.br

Vou falar do Ironman Fortaleza porque foi o motivador desta reflexão, mas qual é a prova em que isso não ocorre? O balanceamento do volume entrerelatos de ótimos resultados e de quebradeiravaria de prova para prova, certamente. Como explicar a existência destes extremos numa mesma prova com as mesmas condições para todos e por que umas provas têm mais pessoas de um lado que de outro. E sobre Fortaleza?

fastHá provas onde a maioria dos relatos são de “super records”. Todos felizes que bateram seus tempos. Normalmente, isso tem a ver com trechos mais curtos e / ou condições muito favorecedoras: corrente a favor no mar, vento a favor no ciclismo. Mas o assunto deste post é um pouco diferente, não é sobre o tempo absoluto da prova, é sobre fazer ou não uma boa prova.

Um exemplo elucidativo: uma pessoa que corre 10k em 45’ no plano. Esta mesma pessoa faz 10k numa prova de montanha em 55’. Como saber se teve um ótimo resultado ou se ela “quebrou”? Acredito que com uma análise cruzada de algumas pessoas, com o relato da própria pessoa, com o resultado do vencedor já é possível entender o que aconteceu, ou chegar bem perto disso.

 

Eu treinei para Fortaleza até 3 semanas antes da prova. Não pude estar lá, infelizmente. Acompanhei bem de perto todo o processo até a prova, acompanhei uns amigos pelo “Ironman Live” e também tive acesso a diversos relatos sobre a prova. O que este Ironman teve de “atípico”? As graves ameaças de ser uma provar absurdamente mais dura que a de Floripa: nadar sem roupa de borracha, pedalar no tufão e correr na caldeira com maçarico na cabeça.
Durante toda a preparação, esta ameaça de que seria um dia dos infernos só aumentou, chegando a ficar beirando à chacota: nadar com tubarões, ventos laterais / frontais de envergar coqueiro e solados de tênis derretidos, causando bolhas e queimaduras nos pés. Eu estava projetando realmente uma batalha! Hehehehe… Tive medo de não sair da água, este foi o maior dos tormentos durante toda a minha preparação.

Em relação ao restante, o que soube desde o começo e o que sempre repeti pra mim, é que seria uma prova mais longa. O que busquei ter em mente é que teria que estar pronta para lidar com uma natação mais longa, um pedal mais longo e uma corrida mais longa. Quero dizer com isso que teria o desafio de não fazer mais força, de fazer mais força do que eu faria normalmente numa prova de Ironman.

Parece uma bobeira, mas estamos acostumados a um tipo de performance relacionado a um nível de esforço. Pareceu-me desde o começo que a grande ameaça desta prova seria à cabeça: conseguir olhar que estava pedalando a 20-25km/h e não forçar. Num dia normal, nos locais que pedalo, isso é muito lento. Conversava comigo mesma que teria que focar tão somente na minha percepção de esforço e na alimentação / hidratação / suplementação, mais do que nunca.

IMFORT_manNão pude colocar em prática todos estes mantras, mas analisei os relatos a partir deles, por isso citei-os acima. Falando friamente de números, comparando-os com a minha expectativa e com o que esperava da prova:

A natação foi dura

    , exatamente como pensei. Meu receio de não sair da água tinha fundamento.

O ciclismo foi mais tranquilo do que eu pensei que seria

    . Foi mais duro que em Floripa, que é uma prova absurdamente rápida, mas eu achei que seria bem pior, que os tempos seriam muito mais altos. Muito mais.

A corrida foi também mais tranquila do que pensei que seria

    . Imaginei que muitas pessoas desmaiariam com o calor. Projetei visão de “campo de concentração” na prova. Os tempos foram um pouco mais altos, mas longe de espelharem o que eu estava esperando.

O que acabei de descrever está baseado naqueles que fizeram uma prova bacana, equivalente aos seus resultados de Floripa, sem o discurso da quebradeira. Os tempos destas pessoas foram algo como 20-30 minutos acima do tempo que fizerem em Floripa. Como não foi um caso isolado, entendo que 20-40 minutos seria o tempo a ser adicionado aos tempos, comparando com Floripa.

ironman-natação-materiaTODOS os que completaram a prova merecem congratulações e reconhecimento. Todos! Aliás, aqueles que conseguiram estar na linha de largada já merecem meu reconhecimento. Muitos desistiram pelo caminho, alguns se machucaram, outros não puderam estar lá. Largar nesta prova é um ato de bravura. Houve desistências no caminho da largada à chegada, pelas razões mais diversas, como sempre há. Vou falar deles mais à frente.


Falando dos que terminaram a prova, aqueles que conseguiram desempenhar o que treinaram mostraram-se pessoas bem treinadas, com cabeça firme e um autoconhecimento fantástico.
MARAVILHA! Aqueles que tiveram percalços diversos (pneu furado, óculos estragado na natação, queda na bike e afins) e seguiram, apesar de ser chato não fazer o tempo que gostariam, estão no grupo de “fizeram boa prova”.

andersenscheiss_gal_l_02Concentrando no grupo da quebradeira, há dois sub-grupo: os que terminaram e os que desistiram. Sei que a partir daqui serei odiada por alguns, questionada por outros. Talvez alguns concordem. Maravilha, adoro esta diversidade de pensamentos. Vamos em frente! Kkkkkk… Eu gosto do esporte de endurance por algumas razões que descolam muitas vezes do tempo final da prova. Valorizo a superação, por mais louco e contra a saúde que seja, emociono-me e vibro demais com histórias como a daquela maratonista suíça, na maratona de Los Angeles de 1984, a Gabriela Andersen-Schiess. Falando em Ironman, o que foi Paula Newby Frazier em Kona 1995? Veja o vídeo: clique aqui!.

Eu já parei em uma prova, não estou julgando as desistências, cada um sabe o que faz consigo e o que está disposto a enfrentar e o porquê. Por outro lado, reconheço que todos aqueles que “quebraram” e seguiram até o fim, têm minha admiração dobrada. Chego ao absurdo de achar tão ou mais sensacional um cara com potencial para 9h30 fechar em 13h que em 9h30. Eu gosto é da briga mental, da superação da vontade de parar. Na minha leitura, é muito mais difícil seguir quando já sabemos que estamos fora do tempo que gostaríamos do que quando estamos lutando para alcança-lo. My respect!

Pensando em por que algumas pessoas “quebraram” e por que algumas pessoas desistiram, parece-me que muitas pessoas quebraram realmente porque fizeram mais força do que deveriam, tanto na natação quanto no pedal. Como a natação foi bem complicada, mar mexido, navegação dificultada, isso pode ter disparado a reação de “fazer mais força” ao invés de manter o esforço e nadar mais tempo.


No ciclismo foi onde isso ficou mais claro: os tempos foram só um pouco acima dos tempos de Floripa
, mas muitos já mostraram a quebra na primeira volta da corrida. Outros tantos abandonaram a prova ali mesmo. Acredito que minha suposição de que a grande batalha seria para se manter “calmo” e não enfrentar as condições se concretizou. O que explicaria este volume de desistências na transição ciclismo / corrida ou na primeira volta da corrida, ou ainda tempos de pace tão altos na primeira perna da corrida?

Apostaria 17 centavos (hehehehe…) na suposição de que os três fatores que mais influenciaram as desistências foram

  • Enfrentar demais as condições da prova, competindo com os paces médios.
  • Impacto mental de não fazer um bom tempo por ter quebrado pelo caminho.
  • Ameaça prévia da dificuldade: a justificativa pronta para desistência desde a largada.

Opa! O elemento novo que mencionei lá em cima foi este. Que impactos sobre a nossa cabeça tem a ameaça da prova difícil? Até que ponto ela move e até que ponto ela freia? Ela nos faz batalhar ou desistir? A resposta é individual, tem total relação com os porquês de estar ali e, obviamente, o perfil de cada um.

Há pessoas que se encantam com as dificuldades e se arremessam.
Outras se encantam e enfrentam com respeito. Há ainda aquelas que desistem antes de vivenciar. E por fim aquelas que até começam a jornada, mas a cada desconforto temem em demasia o passo seguinte, acabam desistindo de seguir. Acredito que as ameaças de prova muito dura deram um discurso pronto para alguns “diabinhos” atazanarem algumas mentes pelo percurso de Fortaleza, quase que como um perdão prévio de que, se desistisse, teria sido porque a prova foi “dura demais”.

Aqueles que abandonaram a prova, não tenho qualquer dúvida, sabem exatamente os seus porquês, tendo ou não facilidade de declará-los de forma tão clara. É difícil assumirmos pra nós mesmos que forçamos mais do que deveríamos, que nos alimentamos de forma inadequada, que não tivemos cabeça para seguir. Mas no nosso íntimo sabemos bem o que foi e os porquês. Às vezes, é difícil até entender bem o que aconteceu. Boa parte dos aprendizados vem das reflexões pós-prova. Aproveitem este momento.

The_good_and_the_badFiquei de fora, salivando. Quanto mais ouvia os relatos, mais senti vontade de estar lá, sofrendo muito e colocando em teste a minha mente. O temor de não sair da água permaneceu por aqui. A curiosidade em saber se eu seria forte para não forçar, se seria forte para seguir e também se seria forte para desistir, se fosse necessário. Só me resta a dúvida.

No mais, acho que esta foi a primeira prova desde que comecei a fazer triathlon onde não ouvi falar de vácuo. Vou fazer um “apanhadão” dos depoimentos sobre a prova, em termos de infra pré, durante e após a prova. Talvez seja o próximo texto.

 

Desejo a todos os que tiveram envolvidos com esta prova que extraiam muito aprendizado. Esta competência é democrática, dos que tentaram e não conseguiram se inscrever aos que finalizaram a prova com a melhor de suas performances, todos podem extrair lições aprendidas.

Sigo fazendo minha lição de casa, refletindo, ouvindo, amadurecendo, seguindo. Sempre em frente.
A mensagem mais importante que extrai da minha jornada:
o caminho é mais importante que a chegada.

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