Estou lesionado! E agora?

Por: Elano Ribeiro.

Um dos grandes fantasmas para o atleta é a lesão. Para aqueles que já inseriram o esporte em sua rotina, ficar sem aquelas horinhas de endorfina é um verdadeiro martírio. E o sofrimento é tão maior quanto maior for o grau de comprometimento do atleta com o esporte.

exaustão

O fato é que ninguém está imune ao tal fantasma. Alguns têm uma compleição física mais favorável, com uma mecânica e musculatura mais resistentes, e sofrem menos com o problemas. Outros não têm a mesma sorte, e, esporadicamente, adquirem lesões que os retiram momentaneamente das atividades físicas. Na corrida e no triathlon, a prática de atividades paralelas de suporte está cada vez mais comum. Sem dúvida, a realização de atividades esportivas mais intensas implica na necessidade de um trabalho de fortalecimento que vai minimizar a ocorrência das lesões.

No entanto, este não é o intuito principal de minha atual abordagem. O que quero mesmo comentar é sobre a forma que os atletas encaram uma lesão. Surgido o problema, como cada um o encara? Eu mesmo fui vítima de um edema ósseo no tálus e uma tenossinovite do fibular do pé direito logo após realizar meu primeiro Ironman, em 2011. E vou contar-lhes como reagi neste período.

fibular longo

Fuçando meus alfarrábios, achei alguns relatos sobre o período mencionado. Os textos vêm muito a calhar para demonstrar as diversas fases (psicológicas) que passamos durante a convivência com uma lesão. Vejamos o início de tudo:

“E o primeiro semestre de 2011 passou. E passou feito um raio! Óbvio que os treinos para um Ironman acabam por consumir horas, e estas consomem dias. E estes…passsam, e passam rápido! . Chega o dia da prova. Você vai lá, faz, alcança seu sonho, tudo é festa! E depois? Hummmm…. . Muito ouvi falar sobre buscar motivação logo após o Ironman (p.ex.: novo objetivo, nova prova), para não correr o risco de entrar no chamado “Ironman Blues” (expressão americana utilizada para uma espécie de depressão pós-ironman). . Achei, sinceramente, que não teria problemas com isso, pois amo treinar. Gosto mesmo! Arrisco dizer que gosto mais de treinar do que competir! . Mas, talvez pela soberba de meus pensamentos, sobreveio uma lesão em meu pé direito, especificamente na região do tornozelo. Esta porcaria de lesão me impede de correr, tendo em vista as fortes dores na lateral do pé. Eu até que voltei a treinar, com a mesma vontade de sempre, mas a dor simplesmente impossibilita a corrida. . Foi, então, que descobri que, para mim, a corrida é a pilastra central do triathlon. Sem ela, ainda que eu possa treinar o ciclismo e a natação, fiquei desestimulado de tal forma que, paulatinamente, comecei a faltar aos treinos. Hoje, no dia em que escrevo esta postagem, faz quase 15 dias que não treino qualquer das modalidades. E a cabeça “roda”…. e os pensamentos voam…. Voam tão alto, ou descem a tal profundidade, que absurdos chegam a povoar sua mente! Absurdos impronunciáveis, irrepetíveis! Principalmente para quem tanto se acostumou a lidar com adversidades e sofrimentos mentais, aprendendo a administrar os mesmos, superando-os. . Seria, pois, o único sofrimento capaz de derrotar um Ironman aquele gerado pela impossibilidade de treinar? Supera-se todo e qualquer sofrimento dos treinos, mas não se consegue superar o sofrimento da falta de treino? Bom….. responderei em um futuro breve (assim espero)!”

atleta desesperado

Pois é! Pesado, hein? O texto passa uma impressão um tanto gótica, não é? Para você ver o estado de espírito em que me encontrava. Porém, após aquilo, comecei a fazer o que era possível. Voltei à pedalar, obviamente sem interromper o trabalho de recuperação (fisioterapia, etc.). Vejam novo relato:

“Dia 06 de agosto de 2011 será realizada a II Etapa do Campeonato Cearense de Triathlon Olímpico. Na primeira etapa, ocorrida em meados de abril, fiquei em 3º colocado na minha categoria (35-39 anos). Foi um resultado surpreendente para mim. Tal fato é mais um motivador para participar da segunda e última etapa, mas o tempo não está a meu favor.

Além de não saber se a lesão no pé possibilitará minha participação na prova, ainda tem o condicionamento físico. Sem dúvida, não estarei na minha melhor forma, assim como estava em abril. Mas, se eu puder participar, já será um enorme prazer.

Pelo visto, só saberei se poderei participar às vésperas da prova.

Amanhã tem treino de ciclismo. Vejamos como os tendões fibulares se comportarão!”

As esperanças pareciam renovadas. Porém, passamos por momentos de muita variação. A calma é essencial neste período, pois te dará o sustentáculo para racionalizar.

“Agora é oficial! Estou FORA da II Etapa do Campeonato Cearense de Triathlon Olímpico.

Ordens superiores (médico/fisioterapeuta) são claras e precisas. Minha lesão até que apresentou melhoras consideráveis, porém, não estou perto de um retorno à corrida. Pelo menos já aceito a ideia com mais naturalidade, pensando em me dedicar mais ao ciclismo e natação. Talvez seja o momento certo de estreitar os laços com a água. Aconteceu com o ciclismo. Porque não pode acontecer também com a natação?”

recoveryfirst

Como se não bastasse o momento ruim pelo qual passamos, ainda temos que enfrentar problemas totalmente desnecessários. Os médicos estão cada vez mais inacessíveis. Caso procuremos “qualquer um” (entenda-se o não especializado em atletas DE VERDADE), o cara manda logo você parar de fazer qualquer atividade física e passa um tratamento qualquer. Tal problema é contornável procurando um médico que seja realmente envolvido e capacitado para cuidar de atletas. Entretanto, este tipo de médico está cada vez mais difícil de ser alcançado (talvez esta dificuldade seja uma característica local, aqui de Fortaleza), em função de inúmeros fatores que não cabem aqui nesta postagem.

lesões

Continuando com a historinha do período da minha lesão, vejam esse episódio, no qual já misturo desespero com ironia:

“Acho que vou apelar para as forças ocultas, sobrenaturais, inexplicáveis. Sabe porque? Não bastasse a lesão no pé – a qual tanto já me tirou a paciência, atormentando meu juízo -, ontem apareceu-me uma leve contratura (não sei se o termo técnico correto seria este!) no lado direito da lombar.

Vou mandar rezar uma missa. Passarei num terreiro de Umbanda e encomendarei um despacho para que esse encosto saia de mim. Contactarei Bispos e Apóstolos (assim auto-proclamados) para que intercedam nas “esferas superiores” em prol deste infeliz atleta amador combalido, sorumbático e taciturno, o qual já está resignado com a maré de má sorte.”

A ansiedade vai aumentando, e isto não ajuda em nada. Seguir fielmente o tratamento e manter a cabeça no lugar é o melhor remédio.

“Após o treino, fiquei particularmente feliz. Não sei explicar ao certo o porquê. Talvez por ter mandado uma boa sequência de treinos de ciclismo desde a semana passada. Porém, a planilha de hoje previa uma corrida de 20 minutos após o pedal. Este é um dos treinos que mais gosto. Fiquei verdadeiramente tentado a correr. Ainda mais por estar sentido grandes melhoras da lesão no meu pé direito.

Mas a razão falou mais alto que a paixão. Segurei a onda e não corri. Sequer levei o tênis, para não cair na tentação que certamente viria após o treino de ciclismo, trazida pela endorfina que correria em minhas veias.

Entretanto, o dia em que voltarei a correr está chegando. E espero – ansiosamente – que eu nada sinta (além de alegria) quando voltar a correr.”

E o tempo vai passando. E temos que aprender com tudo isto. O triathlon, a depender da lesão, ainda te permite praticar uma ou as duas outras modalidades, mas fico realmente consternado com um corredor – exclusivamente corredor – vítima de uma lesão que o deixe no “estaleiro”. Deve ser muito difícil!

Mas minha historinha ainda não acabou… Ela começou no pós-Iron, ou seja, fim de maio 2011. E, até o último relato que lhes mostrei acima, ainda estávamos em julho daquele mesmo ano. E a novela se arrastava… E, como toda boa novela, deixo sua continuidade para o próximo capítulo; digo, postagem.

Fonte: www.papodeesteira.com.br

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